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Obed de Faria Junior


A vida é feita de escolhas

 

A vida é feita de escolhas.

Todo mundo escolhe o sucesso.

Todo mundo escolhe o prazer.

De onde, então, é que surgem

o fracasso e a insatisfação?

 

Não se consegue escolher

a quem iremos amar

ou por quem seremos amados.

A gente pode escolher o amor,

mas quem decide

onde ele cai

e por onde se esparrama,

isso ninguém sabe!

 

Não se consegue escolher

os momentos em que surgirão

a ira e a indignação,

a revolta ou a submissão.

A gente só pode escolher

desistir a troco de sossego,

esquecer a troco de paz

ou lutar até cair.

 

Não se consegue escolher

ser poeta ou cronista,

crítico ou ensaísta.

A gente pode escolher

deitar palavras,

mas o dom de ter algo a dizer

ninguém escolhe.

Isso literalmente brota!

A gente escreve

porque não consegue conter.

 

 

Não se consegue escolher

quando a vida será

modorrenta ou penosa.

A gente pode escolher

deixar que a vida,

de vez em quando,

pule a cerca do tédio.

Porque tem horas

que a frustração nos engasga

e, então, podemos escolher

expelir a vida corpo afora

como uma tosse incontida.

 

Pois é!

A vida é feita de escolhas!

 

 

                 .oOo.

 



Escrito por Obed de Faria Jr. às 16h28
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Brasil: o “ex país do futebol” (Crônicas da série “temas atuais”)

 

 

Assim, como muitos, sou do tempo em que, para os brasileiros, o futebol era o tema mais importante dentre os temas sem importância na vida.

Naquele tempo, o time do coração de cada um era composto por atletas cuja escalação se conhecia de cor e era impensável que um craque de uma agremiação fosse jogar em alguma outra sua arquirrival.

Ainda, era uma época em que o selecionado nacional era tido como a “pátria de chuteiras” e cada jogo do “escrete canarinho” – mesmo que fosse um jogo treino – fazia o país parar. A nação brasileira, composta de milhões de técnicos, tinha lá suas preferências pessoais para cada uma das posições a serem escaladas.

Porém, o futebol, como outras modalidades esportivas, há muito deixou de ser tratado como “esporte” e, na verdade, hoje se enquadra na categoria de “entretenimento”. Afinal, o dinheiro flui para onde haja “mercado consumidor”.  É difícil imaginar o retorno financeiro de um patrocínio para a equipe de nado sincronizado ou de tênis de mesa. São os “shows” televisivos nas transmissões esportivas que dão relevância a qualquer categoria de disputa.  Por isso os times são “marcas”, negociam “naming rights” e coisas afins.

E, como é sabido, onde o dinheiro reina a condução das coisas é feita por interesses financeiros, negociatas e, não raramente, maracutaias de todo tipo.  O futebol, portanto, secundariamente é um esporte ou uma arte porque, agora, é primordialmente um “grande negócio”.

Sintomático que nosso principal craque esteja envolvido em processos judiciais que questionam a transação que promoveu sua transferência para o futebol europeu.  Meu sentir é que isso só tomou esse vulto, porque os envolvidos são "estrelas na mídia”, tanto o jogador como o time para o qual se transferiu.  Tudo indica que esse tipo de estratagema aconteça de forma corriqueira com outros times e outros jogadores, mas ninguém se importa.

Também, é notório que os times de futebol no Brasil estejam falidos em sua maioria, mas seus dirigentes sejam pessoas riquíssimas que fazem investimentos estranhos e ilógicos em nome do “amor ao esporte”. Há algo podre por trás disso.

Técnicos e jogadores ganham verdadeiras fortunas, o que é natural porque são protagonistas desse circo.  Porém, com que isenção alguém aponta um novo talento, ou indica uma nova contratação ou, ainda, escala uma seleção nacional?  Se tudo é movido pelo dinheiro, não são o esporte, o público ou a ética que estão em primeiro plano.

Os times de futebol brasileiros que entram em campo são desenhos na areia, porque se fazem e desfazem com uma rapidez e desfaçatez que não justifica, sequer, que haja realmente uma torcida por esta ou aquela agremiação.  O que existe são simpatias por brasões e bandeiras em função de sua história. O resto é fumaça!  Incrível que haja quem mate e morra por isso.

A seleção brasileira de futebol é uma piada!  Não passa de um “catadão” de jogadores que estão em voga no mercado internacional e a CBF e sua comissão técnica se prestam a servir de vitrine para divulgar possíveis negócios.  A cada nova competição, é interessante o fluxo de atletas que vão e vêm ao sabor de escalações arbitrárias que não guardam senso lógico com a tática e estratégia do jogo.

Amor à camisa e vergonha na cara não tem mais nada a ver com futebol, e o mesmo se pode dizer de técnica, talento e arte.  A crise do Brasil como estado e como nação está refletida naquilo que outrora foi a “paixão nacional”.  Nossas estruturas e instituições estão doentes e o futebol é só mais um componente infectado no meio disso.

 

 

                                      .oOo.

 



Escrito por Obed de Faria Jr. às 16h24
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Delação premiada (Crônica da série “temas atuais”)

 

 

Tenho lido e ouvido muitos absurdos a respeito do instituto da “Delação premiada”, dando especial destaque às sandices dita pela Presidente Dilma – o que é costumeiro, no caso dela.

Ora, a ilustre primeira mandatária da nação comparou a “delação premiada” às informações extraídas por torturadores na época do regime de exceção no Brasil.   Por Deus do céu, uma bobagem dessa não deveria ser dita nem sob tortura!

Um insigne Ministro do STF ainda vem a público para afirmar que delações necessitam ser espontâneas, como se não fosse óbvio que espontaneidade é algo fora de cogitação para quem está atrás das grades procurando livrar a própria cara.  Isso tem a ver com interesse e conveniência e não com crise de consciência.

Com efeito, a legislação é clara e objetiva quando deixa registrado que a delação, em si, não constitui prova, mas sim, indício a ser investigado e, em caso de existirem provas objetivas que confirmem o relato do alcaguete, então a dita delação terá, sim, sido proveitosa.

O que cabe observar na enxurrada de delações que de repente assolaram as investigações e processos criminais, é que elas dizem respeito a um único tema: corrupção!

E assim, fulano, menciona beltrano que implica cicrano e por aí vai.  Todavia, todos eles, sem exceção, relatam atos da mesma natureza, praticados do mesmo modo, favorecendo as mesmas pessoas e tudo isso está passível de confirmação com o mero rastreamento do dinheiro.

A essa altura, na verdade, já é inequívoco, público e notório que dinheiro público (indiretamente alocado na Petrobrás) foi utilizado para favorecer contratos com entes privados que, em contrapartida, devolveram parte desses montantes como doações a políticos e partidos ou pagamento de “assessorias, consultorias ou serviços” que nunca existiram.

Provas existem aos montes e os envolvidos e favorecidos nesse festim criminoso com o dinheiro público já são conhecidos de todos.

Falta punir os principais culpados!  No caso, nossa atual Presidente e seu antecessor, que tinham e têm ingerência sobre da Petrobrás, que foram e ainda são chefes e correligionários de diversos políticos envolvidos e que, por fim, pertencem ao Partido dos Trabalhadores (instituição corruptora mor deste país).

Por enquanto a “delação premiada” só atingiu os agentes e intermediários, mas falta alcançar os verdadeiros beneficiários dessa maracutaia generalizada.

Só fico aqui pensando que tipo de indício falta para que se iniciem as investigações no BNDES, na Caixa Econômica Federal, no Banco do Brasil e outras instituições comandadas pelo poder executivo central.  Sem a menor sombra de dúvida, “o buraco é mais embaixo”!

 

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Escrito por Obed de Faria Jr. às 07h30
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Redução da maioridade penal (Crônicas da série “temas atuais”)

 

 

Atualmente, em voga, está o debate sobre a redução da maioridade penal, que infestou as discussões e que, também, é objeto de movimentos legislativos.

Com efeito, o senso comum tem como medida indispensável a punição de infratores e, nesse passo, bradar pelo encarceramento de bandidos é algo inevitável.  É certo que há os mais radicais que defendem a pena capital e, ainda, os que enxergam no linchamento uma medida justa.

A questão central, no caso, diz respeito à ânsia por justiça que se dá pela vingança da sociedade contra os malfeitores e o ideal humanista que vê nas penas restritivas de liberdade uma oportunidade de ressocialização.  Em princípio tais pontos de vista são inconciliáveis.

O que se discute, especificamente, é se jovens infratores – leia-se: perigosos bandidos com pouca idade – devam ser punidos severamente ou, considerando que são seres com personalidade ainda em formação, estariam maleáveis a uma saudável ressocialização. Punir ou educar?

Apesar de que, pessoalmente, não consiga eu aceitar que o fator etário tenha, de fato, relação direta com a capacidade de delinquir – isto é, para mim quem é mau comete maldades em qualquer idade – não vejo como a redução da maioridade penal vá ter algum impacto positivo.

Com efeito, a existência de penalidades para qualquer delinquente não inibe que as pessoas saiam por aí delinquindo, sejam eles maiores ou menores de idade.

Penso que o debate mais consequente que se deveria buscar é sobre medidas de garantia de melhoria na segurança pública como aperfeiçoamento e aparelhamento das forças policiais, incremento de melhoras e expansão no sistema prisional e coisas assim.

Infelizmente, o problema não é de maioridade penal, mas sim, de maturidade moral.  As pessoas em geral, seja lá a idade que tenham, são estimuladas ao erro porque, ao contrário do que diz o bom senso, o crime compensa já que a impunidade impera.

De nada adianta essa comoção generalizada para levar jovens delinquentes à prisão, se não conseguimos sequer que os bandidos já maduros e calejados sejam de fato punidos. Essa corja de corruptos que nos comanda nos diversos níveis do poder é exemplo de “maiores de idade” impunes.

O que parece mais razoável é rediscutir o Estatuto da Criança e do Adolescente, de modo a não enxergar um mundo cor-de-rosa que não existe, para de fato poder garantir uma melhor formação para nossos jovens. Na forma como hoje isso está posto, existem tantas “garantias” para proteger os infantes, que isso lhes proporciona desde tenra idade uma impunidade sem limites.

O rigor e severidade aplicados na restrição de liberdade e ressocialização desses seres, não pode ter por critério uma medida arbitrária a partir de anos contados no calendário, mas sim, do grau de delinquência e periculosidade de cada um.

Assim, penso que oito ou oitenta tanto faz! O problema é o que e como fazer com aqueles que são perniciosos para a vida em sociedade, seja lá em que idade for.

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Escrito por Obed de Faria Jr. às 16h38
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Boêmio aposentado

 

 

Outrora, a noite foi o meu habitat. E, naquele tempo, de nada valeria a noite se não fosse a boemia. Ah! A boemia! Sem ela a noite era calabouço de torturas mercê de insônias cruéis.

Em volta de mesas de bar, na atmosfera onde os perfumes das pessoas se misturavam às fumaças dos cigarros, bebia-se para que o estado de ânimo fosse insuflado por aquele torpor hipnótico que enleva a alegria e o livre pensar. Música era fundamental, mas instrumentos e vozes eram os dos próprios boêmios que compunham show e plateia, tudo ao mesmo tempo. O flerte era jogo preferido dos amantes platônicos com paixões descartáveis.

Era nessas rodas que brotavam a crônica falada, o ensaio filosófico sem preconceito e a poesia sem amarras. Quantos e quantos guardanapos de papel foram varridos ao fim de cada noite levando consigo os apontamentos e anotações daquelas mentes febris. Sabedoria intuitiva misturada a caldo de cultura que não deixavam registro para a posteridade. Na boemia alegrias e paixões eram efêmeras e se não o fossem perdiam um tanto daquela aura de festim que atiçava os sentidos.

Hoje, a noite ainda existe, é claro, mas o mundo fechou cada vez mais as portas para a boemia. Há muita balada, há muita arruaça, há muito barulho, há muito sexo casual, porém – Ah! Maldito porém! – os espíritos dos cronistas, dos filósofos e dos poetas estão isolados e confinados a assépticos aposentos domésticos, postando em blogs, no twitter e no facebook porque não querem se expor a arrastões, porque não toleram fumar de pé nas calçadas e ao relento, porque se recusam a obedecer teores alcoólicos politicamente corretos e porque qualquer declaração de amor repentino e passageiro pode ser confundida com assédio.

Eu, como muitos outros, me adaptei aos novos tempos. O boêmio que se esconde em mim está aposentado e não vê mais graça em rabiscar desvarios em guardanapos de papel porque pudicos de fachada – hipócritas de corpo e alma – limitaram os pequenos vícios sociais, inibindo a exposição das legítimas inspirações de liberdade. Existem, sim, os mais liberais, entretanto mesmo estes já não leem guardanapos rabiscados, pois só ficam com suas caras enfiadas em smartphones e tablets.

Expulsaram a boemia e a noite ficou muito medíocre!

 


.oOo.

 



Escrito por Obed de Faria Jr. às 18h06
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