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.:~oOº Sentimento Crônico ºOo~:. Obed de Faria Jr.

Descobertas Tanto chorei – não nego que sofri – dorido em chagas que guardei internas. Sangraram lágrimas demais dali; no coração cravei minhas cisternas. Fiquei chocado quando descobri que as ilusões não são chamas eternas, que as tentações não são um mal em si mas que o amor não vem do vão das pernas. Lamento um tanto que tais descobertas tenham chegado de forma tardia e agora pouco têm de serventia. Minhas verdades nunca foram certas e a falsidade alheia foi vazia. Amar é triste, mas eu não sabia!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 00h49
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Exposto
Já não sei onde me ponho nesta vida, onde os covardes se escondem sob os limites da formalidade, enquanto a injustiça se esbalda sem regras.
Já não sei onde me ponho nesta vida, onde os mestres da vileza se debruçam impunes sobre os altos muros de seus cargos.
Já não sei onde me ponho nesta vida, onde os incompetentes se camuflam com as vestes do prestígio, formadas pela junção de retalhos de seus imerecidos títulos de distinção.
Nesta vida, já não sei onde me ponho. Ingênuo, me exponho!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 21h36
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Enfim, cinquentão! Agora, já posso dizer: “Do alto dessa calva meio século vos contempla!” E que dura jornada foi essa! Gostaria de poder relatar uma biografia cheia de realizações e grandes sucessos, todavia, fui contemplado com uma vida fadada à banalidade do anonimato e à mesmice de sobreviver aos trancos e barrancos. De heróico – se é que assim se pode qualificar – destaco que resisti, nem sempre bravamente, às diversas vezes em que cogitei desistir de tudo; e foram muitas, eu garanto! Talvez fosse hora de fazer um balanço de tudo que já passou, porém, entre ganhos e perdas o saldo não é lá algo que justifique tamanho esforço. Ganhei muito, perdi quase na mesma proporção e, um pelo outro, até que não há porque me queixar. Minha maior riqueza, sem dúvida, são meus filhos – inclusive um postiço, que agreguei de bom grado à trupe. Não posso deixar de agradecer, também, o fato de que, mesmo tardiamente, já em pleno curso da meia-idade, tenha conhecido, enfim, um amor sincero e desinteressado. Além disso, os valores e princípios vindos dos exemplos de meu saudoso pai e a bênção de, até hoje, desfrutar de um carinho mãe não são meros detalhes, mas significativas benesses que tornaram tudo possível. Quanto a amigos, por pouquíssimos que sejam, os que tenho são bem melhores do que pareço merecer – e ainda bem que existem. Então, por que falar de superação, volta por cima ou resiliência? Isso só daria ensejo a ficar ruminando as passagens pouco gratificantes desta existência. Como todo mundo, enfrentei tragédias e decepções e não há favor nenhum em ter suplantado seja lá o que for. Sobreviver e acreditar que isso sempre vale a pena é o mais próximo de felicidade que qualquer um pode desejar. Por fim, alegrias e prazeres conheci e desfrutei o quanto pude. Ah! Estes meus cinquenta anos valeram por mil. Não conto que haja outro tanto desse pela frente, mas aguardo com entusiasmo juvenil todo novo dia que desponta. A esta altura da vida, já não sou partidário de viver cada dia como se fosse o último – até porque me falta o vigor para tanto – mas, sim, como se fosse a melhor oportunidade de estar vivo. Aprendi a ver Deus nos sorrisos de quem amo e no alívio daqueles a quem eu consiga acudir. Que mais alguém pode querer? OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 01h16
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Meus motivos Por circunstâncias da vida – dessas que a todo mundo atingem – chegou um momento em que isolar-me apresentou-se como a melhor solução – mesmo sendo a que quase ninguém escolhe. Não sou alguém que possua algum dom que escape ao mais das pessoas. Normal em quase tudo, banal na maior parte do tempo e previsível até certo ponto... É o que sou! De especial, talvez, seja uma capacidade natural de tocar a vida daqueles com quem esbarro no caminho. Raramente é possível passar por mim e prosseguir sem que algo não tenha sido acrescentado de útil, proveitoso ou prazeroso. Deixo marcas e feridas também, mas são consequências inevitáveis de certas intervenções que exigem alguma contundência. Um pelo outro, tenho comigo que o saldo sempre foi positivo. De minha parte, todavia, sinto que fui usado e jogado fora mais vezes do que mereci. Também, tive meu ego afagado com esmero por quem, depois, me relegou a papel de mero figurante na novela da vida – sequer coadjuvante pude ser. Sei mesmo é que nas horas de angústia e desespero, de medo e incerteza, de abalo e desorientação nunca tive ninguém a meu lado com uma atitude de solidariedade realmente eficaz. Já tentaram, sim, me apoiar e consolar de várias maneiras: desde de tapinhas nas costas, passando por ideias prontas e pensamentos enlatados, com passagens memoráveis de mãos segurando as minhas e – por que não admitir? – até momentos de sexo de boa ou má qualidade. Nada disso realmente aplacou meus mal-estares. Acho que fui tão fundo dentro de mim mesmo que ninguém consegue mergulhar nessas regiões abissais da alma. Vez por outra, quando consegui admitir que Deus não é só um amigo imaginário, algum conforto já encontrei numa prece. Porém, boa intenção sem reação efetiva não é lá algo que surta muito efeito na vida concreta. Quanta gente há que se julgava com íntima amizade comigo e que, de repente, simplesmente passei a desconsiderar. Para que eu pudesse dizer a todos que tipo de vileza cada um cometeu e que me levou a isso teria de resgatá-los do desprezo em que os confinei. Melhor que fiquem por lá sem saber, porque não estou interessado em dar satisfações a quem não demonstrou por mim a consideração e o respeito adequados. Outras tantas pessoas com quem já troquei juras de bem querer só conseguiram reforçar em mim a ideia de que o amor como eu o concebo é para os deuses. Esse amor dos mortais é egoísta e falso demais para que eu consiga me adaptar a ele. Azar meu, porque estou fadado a ser humano entre os humanos – e disso não há como escapar! Remanescem, é verdade, alguns poucos por quem eu tenha sincera e recíproca consideração. Mas, além de não serem muitos, também não têm a predisposição adequada para mitigar eventuais aflições que me assolem. São bondosos e bem intencionados, mas seu mundo é o da superfície. Fiquei, assim, avesso demais, arisco demais, enfim, solitário demais! Sei que não é a solução ideal, porém, tenho cá meus motivos!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 02h12
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Feliz aniversário! Hoje é dia de comemoração. Nesta mesma data, há um tempo lá atrás, você nascia. Alguns amigos e parentes com certeza lembram disso e lhe felicitam; outros, talvez, tenham esquecido e, também, há os que sabem mas não ligam. Há presentes, ausentes e indiferentes. Os que contam, certamente, são os que tocam seu coração, por isso, mantenha o foco naqueles que dão atenção a este momento, para que sua própria lembrança seja só motivo de alegrias. Se houver festa, com bolo, velinhas e cantoria, não se perca em vãs matemáticas. Não conte as velas, porque elas só marcam a passagem do tempo e não a intensidade da vida. Não conte os pedaços de bolo que serão distribuídos, porque isso é só um registro passageiro de quem pôde estar presente e não mede quem realmente gosta de você. Simplesmente, ria, cante e comemore, porque é a quantidade de sorrisos que existem na vida – e não de dias! – que ditam se ela realmente está sendo bem aproveitada. Hoje é dia de festejar sua existência e não os giros no calendário. Seja lá que idade o mundo atribua a você, lembre sempre que o importante é ter crescente maturidade nas escolhas, permanente juventude no espírito e um zelo redobrado para que jamais os sonhos envelheçam. Ser feliz é uma escolha em seu estado de ânimo. Portanto seja feliz o máximo que puder, para que este e outros aniversários também sempre o sejam. É seu aniversário! Viva! Viva! Viva! OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 09h40
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Mensagem de fim de ano
Esta época é de festas, felicitações e votos de bons agouros. Difícil, todavia, é não cair no lugar comum.
Digo eu, portanto: aproveitem o momento propício para reflexões e confraternizações. Ainda, agradeçam pela vida, zelem o contato com os mais próximos e reafirmem seu respeito por todos os demais.
No mais, sejam descaradamente felizes, ora bolas!
Grande abraço!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 19h35
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Bodes que tocam violino Há uma cena no filme “Um lugar chamado Notting Hill” em que os protagonistas principais, Anna e William, interpretados por Julia Roberts e Hugh Grant, contemplando uma gravura com a reprodução de um quadro de Marc Chagall – La Mariée – desenvolvem o seguinte diálogo: – Você gosta de Chagall? – pergunta William. – Sim. – responde Anna – Se parece com como estar amando deve ser. Flutuando em um céu azul escuro. – Com um bode tocando violino... – emenda William, fazendo graça com um dos detalhes surrealistas da tela. – Sim. – retruca novamente Anna – Felicidade não é felicidade sem um bode que toca violino! Na verdade não é a única referência ao surrealismo que existe naquele filme. Em pelo menos outras duas cenas, cada um dos dois enamorados também qualifica sua inusitada e aparentemente impossível relação como sendo algo surreal. Pois bem! Isto aqui não é uma resenha ou crítica cinematográfica. O tal do filme é uma comédia romântica que caiu no gosto popular com tamanho sucesso que é reprisado ao menos umas quatrocentas e oitenta e oito vezes ao ano, em diversos canais na tevê a cabo – e algumas mais, na tevê aberta. O que importa é que toda relação amorosa é surreal para quem a vive. Todas elas têm algo de inusitado, de impossível e de onírico sob o ponto de vista dos amantes, que se sentem flutuando em céu azul. A perplexidade alheia, como não consegue absorver o que há de belo e surreal entre duas pessoas que se gostam – por inadequado que isso possa parecer – desvia sua própria incompreensão anotando e destacando o que há de bizarro. Ou seja, só para quem está de fora e de longe é que ressaltam, sempre, os bodes tocando violino. Infeliz de quem liga para o que os outros pensam! OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 18h21
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Baladeiro, não! Sou boêmio! Outro dia fui convidado para um evento que iria dar-se numa determinada casa noturna. Até aí, nada demais! O que me surpreendeu foi o comentário – em tom jocoso – de que eu deveria ir porque, afinal, sendo eu um baladeiro, o que iria rolar seria pra lá de interessante. Todavia, recusei o convite. Não pelo evento em si – e, aqui, não cabem maiores detalhes sobre ele – mas pelo inusitado apelo que anunciou tratar-se de uma balada. Ora! Com efeito, não é segredo para ninguém que gosto, sim, da vida noturna. Porém, nada tem a ver comigo a qualificação de baladeiro. Na verdade, sou boêmio, que é algo muito diferente. Balada é pegação; boemia é sedução. Balada é entorpecer os sentidos; boemia é estimular as emoções. Balada é exibição e destaque; boemia é confraternização e descoberta. Balada é zoeira; boemia é picardia. Poderia me alongar nessas comparações quase que indefinidamente, mas acho que já me fiz entender quanto a meus pontos de vista. E que me desculpem os pudicos, os abstêmios, os carolas e os noveleiros. Aceito que tenham seus respectivos modos de ser, mas espero que respeitem minhas próprias escolhas. A boemia, afinal, não é para quem quer, nem para quem pode, mas para quem não consegue resistir a ela. É um chamamento às almas que se arriscam a ser momentaneamente livres nos intervalos entre a responsabilidade e a pasmaceira do dia-a-dia. Na boemia se cultua a noite e só quem seja um notívago de carteirinha reconhece o prazer que isso dá. Na boemia se vive, em poucas horas, todas as fases do amor – desde o flerte, passando pela conquista e o arrependimento, até o descarte. Na boemia não se come pela gula, mas pela excitação do paladar. Na boemia não se bebe pelo vício, mas sim, porque poções etílicas afastam as diferenças entre as pessoas e aproximam os dramas entre os espíritos. Na boemia floresce a música, a dança e a poesia e, lá no fundo, só um artista muito versátil consegue, de fato, ser um boêmio competente. É bem verdade que todo boêmio, mais cedo ou mais tarde, é tachado de ser, de alguma forma, um mau caráter – mesmo que de leve. Entretanto, confesso minhas fissuras na alma, mas não renego minha natureza. Sou boêmio e gosto disso! OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 19h30
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Ou a passo ou a posse Semanas atrás fui à festa do casório de um conhecido meu. Estando por lá, todos os ingredientes desse tipo de festança estavam presentes: gente vestida de gala, arranjos e requintes e coisa e tal. Em meio a risos e cumprimentos os nubentes circulavam entre as mesas onde familiares e amigos confraternizavam com sincera efusão. Tudo corria às mil maravilhas e o festim seguia animado e bem servido. Todavia, para estranheza minha, a música ambiente e a pista de dança estavam relegadas a um inexplicável desprezo coletivo. A circunstância cuidadosamente armada para que o festejo acolhesse o bailado em geral estava ali sendo ocupada pela criançada que corria atrás de balões de gás e coisas do gênero. Diante de tamanho desperdício, tomei meu par e fomos apenas nós, descaradamente, reconquistar os domínios da música que haviam sido tomados de assalto pela alegre, porém deslocada, fuzarca infantil. Preciso admitir que jamais fui um pé de valsa. Menos ainda, ousei me aventurar nos malabarismos difundidos em profusão por esses cursos de dança de salão, que estimulam a coreografia sincronizada de passos rebuscados e que mais servem para o exibicionismo gratuito do que para o verdadeiro prazer de bailar. Com efeito, a dança bem conduzida serve para aproximar os corpos, permitir o contato de peles, induzir o olho no olho e o sussurro no ouvido. É um exercício erótico que se pode praticar em público e que, mesmo assim, é socialmente aceitável. Nunca vou compreender porque há quem se perca na exibição do domínio egoísta do passo próprio em detrimento do doce exercício da excitante posse do corpo alheio. E lá fomos nós, casal apartado da turba, flutuar no dois pra lá dois pra cá, fazendo-nos condutores vivos da energia nada estática que só os ritmos, sons e melodias podem transmitir. Quanto ao mais dos circunstantes, nada posso dizer, porque o ambiente em volta se diluiu enquanto submergimos no transe de estarmos juntos nos roçando em fantasia. A festa foi boa! Serviu-nos de preliminar e o pós-festa foi melhor ainda! OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 08h25
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Do pó ao póDo pó viemos e haveremos de voltar, porque na essência somos todos sempre iguais. Se Deus nos molda como um barro singular é a mesma argila que nos faz sermos mortais. É uma ilusão que alimentamos por pensar que cada um possua dons especiais. É bem verdade, cada um tem seu lugar, que se, hoje, é seu, num amanhã não será mais. E se ficamos na soberba a ruminar, esse prazer é uma alegria bem fugaz. Nos endeusamos e subimos num altar que vai ao chão tão logo a morte venha atrás. Perante Deus, que vida veio a nos soprar, seremos pó, somente pó e nada mais. OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 01h04
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Oração de Natal Pai! Vês as casas vestidas com luzes coloridas? E os pacotes enfeitados embaixo das árvores? E as famílias reunidas em torno das mesas? E as ceias postas no aguardo do festejo? Vês, Pai? Te peço: abençoa esse contentamento passageiro e ilumina o coração dos homens para que eles o transformem em alegria duradoura. Pai! Vês as casinhas de lata e madeira, e os viadutos e pontes que servem de teto aos menos afortunados? E as criancinhas de mãos vazias de presentes, de estômagos vazios de sustento e de olhos vazios de esperança? E os solitários esquecidos do resto do mundo? Vês, Pai? Te peço: os protege e conforta para que não percam jamais a fé em dias melhores e os desvia da necessidade da esmola espargindo a benção do trabalho tão desejado. Pai! Vês os corações partidos por amores não correspondidos? E as mentes aflitas por ideais não consumados? E as mãos sôfregas por empreitadas infrutíferas? Vês, Pai? Te peço: os consola em sua dor para que não desanimem da vida e os inspira a buscar no amor fraternal, na criação produtiva e no trabalho solidário a recompensa verdadeira. Pai! Oh! Pai! Por fim, vês este teu filho que te roga tanta coisa? Vês, Pai? Para mim nada te peço porque muito já me deste. Só quero agradecer-te a oportunidade de estar vivo por mais este Natal! Amém! OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 00h54
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O pão nosso de cada dia Estava eu na fila em frente ao balcão da padaria para comprar pão; o que é quase óbvio! Passou-me pela cabeça comprar leite e manteiga também, mas nada disso teria sentido se não fosse pela irresistível necessidade de comer pão. Enquanto eu, mentalmente, tentava definir quantos pãezinhos seriam necessários para saciar meu fetiche alimentar – além de cogitar o acréscimo de alguns frios para contraporem-se aos pães quentes – notei a dificuldade dos balconistas para se especializarem na secular arte de servir pães. Uma velhinha, a frente dos demais, já ocupava o seu privilegiado lugar fazia alguns minutos, tentando explicar ao rapazote do outro lado do balcão qual o grau de bronzeamento específico dos pãezinhos que queria levar consigo. Deveriam ser moreninhos, porém não tostados demais; crocantes, porém não duros e... sabe Deus mais o quê! Na sequência, tomou seu lugar um pós-adolescente – que nada mais é que um rapazinho que já pensa que é homem – que lançou, então, toda a sua sapiência sobre a manufatura de pães. Explicou que não queria pães com muito miolo, caso o cozimento da massa tivesse sido insuficiente, porém, que se a fornada tivesse saído no ponto ideal, quanto mais miolo, melhor! Pois bem! Vários pedidos depois – uns mais complexos, outros nem tanto – feitos pelos que me antecediam na fila, acabei por me instalar na condição de ser o próximo a pedir os pães. Àquela altura, eu já me sentia a besta das bestas, por não ter sequer algum rudimentar conceito do que fosse a intrincada ciência de escolher pães. Diante de minha flagrante ignorância, tal qual Maria Antonieta pouco antes da Queda da Bastilha, optei pelos brioches! OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 15h44
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Pontos e contrapontos Como faço praticamente todos os dias, cruzava eu a Praça da Sé, no Centro de São Paulo, para ter acesso às escadas rolantes na entrada do metrô quando, compelido por aquela urgência que caracteriza todo paulistano, resolvi parar e comer alguma coisa qualquer por ali esmo. O primeiro mata-fome com que me deparei foi um daqueles churrasquinhos gregos que, por módicos dois reais, dão direito ainda a um suco – sei lá de quê; sei que era amarelo! Ali, de pé, engolindo aquela antítese gastronômica, passei a sondar o ambiente e os circunstantes, ora deixando-me levar pelo que fosse pitoresco, ora pelo que se destacasse no burburinho. Fosse lá o que fosse, se a bizarrice não lhe estivesse inerente o contraste com o que estava à volta lhe conferia tal condição. O local em si é até interessante, não fosse pela infestação do populacho. A imponente e antiga catedral neogótica rouba facilmente a paisagem em face dos insossos elementos decorativos abstratos que se prestaram a servir de adorno à secura imposta à praça, após a construção do metrô. As palmeiras, que pontuam à frente disso, se dispersam diante da imagem ao fundo das fachadas dos antigos prédios no entorno. O espelho d´água, que mais parece um açude de concreto, órfão de chafarizes, reflete um céu quase sempre cinza como que na ânsia de que algum reforço pluvial lhe venha do alto. Há um posto policial onde a segurança da população fica a cargo de valentes servidores que, à míngua de ocorrências delituosas, encaram a ingrata tarefa de servirem como balcão de informações. É comum a presença de feéricos pastores, neo-profetas de Bíblia sob a axila, gritando impropérios contra nós, os pecadores em geral. Uma horda de desocupados e pedintes se amontoa em grupos aqui, ali e acolá, sabe Deus esperando pelo quê. A massa trabalhadora, indo e vindo, tromba e desvia de cavalheiros engravatados e distintas senhoras em seus conjuntinhos monocromáticos de saia e blusa. Pois é! O passado e o presente, a opulência e a miséria, o chique e o brega, o culto e o vulgar, tudo se confunde na miscelânea do lugar. Essa é a cara de São Paulo, que abriga gente vinda de todo canto e a todos acomoda em sua confusa construção social. De repente, vindo não sei de onde, desfilava calmamente em meio à multidão uma esguia e bela morena, num vestido que, apesar de simples, valorizava suas formas no embalo dos movimentos. Pensei comigo: “Eis aí algo que nada tem de bizarro!” Ao passar por mim, ela olhou-me justo quando eu abocanhava meu grotesco almoço e, com um indisfarçável asco, virou o rosto e apertou o passo. Percebi, então, que o contraponto de seu “sex appeal” era eu! Certamente, pouca coisa seria mais bizarra do que isso. OUÇA O ÁUDIO!!!
Escrito por Obed de Faria Jr. às 13h30
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Vitória de Pirro Amar? Amar não dá, como era de costume. No lufa-lufa o amor ficou fora de alcance. Solver problemas; nisso a vida se resume! Onde é que há tempo, enfim, pra ter-se algum romance? Deposto o sonho, em seu lugar, o que é que assume? A vida modorrenta não concede chance, porque ela é uma tirana cheia de azedume que explora o coração até que ele se canse. Minh´alma morre aos poucos, pende por um fio, porque olho à minha volta e não há nada aqui. Há um grande desperdício de ternura e cio. As contas já paguei e os prazos já cumpri; galguei alguns degraus, bati meu desafio e o mundo vai pensando que eu, assim, venci. OUÇA O ÁUDIO!!! 
Escrito por Obed de Faria Jr. às 11h49
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Crise de identidade Há pouco tempo, fui resolver um assunto burocrático de menor importância e, para minha surpresa, o que era algo simples quase tornou-se um problema sério. Tudo quase se frustrou porque minha carteira de identidade foi recusada. A justificativa foi de que estava plastificada e, então, não poderia mais servir como documento. Saí de lá meio indignado porque, afinal, há décadas que eu, para provar que sou eu, sempre usei o mesmo documento e, na época em que eu o obtive, a orientação era justamente que o cujo dito fosse plastificado para melhor conservação. De repente, minha mera presença não era mais suficiente para comprovar que eu existia. De qualquer forma, considerando que meu “erregê” padeceu de aposentadoria compulsória, passados alguns dias, lá fui eu pedir uma segunda via do documento. E toca tirar foto e encontrar comprovante de residência e, de tudo isso fui munido para obter o que precisava. Para minha surpresa, nem nessa circunstância a carteira antiga foi suficiente para obter outra nova em seu lugar. Exigiram-me certidão de casamento, também! Tudo bem que de comprovante de casório tenho dois. Todavia, o mais antigo já não tem valor, e o mais recente – nem tão recente assim – tem tantas averbações, emendas, observações e outros que tais, que mais parece certidão vintenária de registro de imóvel. E, no caso, trata-se de uma “certidão negativa”, já que só serve para provar que não estou casado! Deveria chamar-se, então, certidão de “descasamento”. Mais uma vez senti-me acabrunhado. Tudo bem que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher e coisa tal, porém no meu caso, nem eu sou tão grande quanto gostaria e nenhuma delas sustentou a sina o quanto eu precisaria. E mesmo que nunca tivesse contraído matrimônio (nossa! até parece doença!), deveria apresentar a certidão de nascimento, que é um papel que jura que minha mãe – e não outra pessoa – me pôs no mundo. Seja como for, para provar que eu sou eu, eu mesmo não basto! Posso dar minha palavra de homem ou tantos fios de bigode quanto os tenha e nada disso resolverá. É preciso um papel que diga se e quando uma mulher fez o favor de dar algum sentido à minha existência. Depois de algumas filas, algumas taxas e algumas impressões digitais, enfim, consegui um “erregê” novinho, novinho! Pena que o ser capturado na foto 3 x 4 não possa ser substituído por uma segunda via tão nova quanto. Fiquei por um tempo analisando aquela feição em franca decomposição e, então, notei que não me conformo que aquele ali sou eu. Pois é! Não adiantou plastificar a juventude, porque ela se deteriorou assim mesmo. OUÇA O ÁUDIO!!! 
Escrito por Obed de Faria Jr. às 06h38
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